O Sistema é Foda?

Mais uma vez, lá estávamos para assistir um filme na sessão das 0h20. Agora a expectativa era sobre a continuação do já consagrado Tropa de Elite. Acompanhando a narração do Capitão Nascimento, o expectador é levado a conhecer as entranhas da corrupção, suas origens, efeitos e sistemática. O efeito é instantâneo na sala de cinema, criando uma atmosfera de excitação “anti-sistema”.

A frase final do filme me deixou intrigado. Capitão Nascimento diz: “O Sistema é foda!”. E é como se todo mundo acenasse com a cabeça concordando com a afirmação. Eu particularmente não concordo.

O Sistema é mal? Corrupto? Contaminado? O Sistema é Foda?

Mas quem é o Sistema? Escrevo com S maiúsculo para demonstrar que o sistema foi personificado, virou nome próprio. Onde devo procurar o Sistema? Qual seu e-mail? Seu endereço? Ele tem Twitter ;)?

Ah, por favor. Um sistema é uma figura representativa para indicar o conjunto de partes que o compõe. O Sistema que Nascimento condena no filme não deixa de ser a união (e relações) dos indivíduos.

Aliás, o filme desenha perfeitamente o funcionamento do Sistema. Como uma cadeia alimentar, tudo começa pequeno. O exemplo emblemático utilizado em Tropa de Elite foi o GatoNet, famoso sistema de conexão pirata com a TV a cabo. Os policiais corruptos, que antes cobravam propina do tráfico de drogas, se transformaram em provedores de serviços nas favelas do RJ, fornecendo desde o GatoNet, segurança, gás, entre outros. Nasciam as milícias, um verdadeiro poder paralelo nas comunidades. Para fazer vista grossa, as autoridades apoiavam as milícias em troca de votos, principalmente em época de eleição. E por aí vai.

Nesse ritmo, o Sistema, assim como o famigerado Mercado durante as crises econômicas, ganhou vida própria e já foi condenado pela corrupção. “O Sistema é Foda!”. Vamos acabar com o Sistema? Como?

Se um Sistema é formado por partes, se mudar essas partes, o Sistema acaba/muda, certo? E especificamente o Sistema inimigo do Capitão Nascimento, e creio ser de todos nós brasileiros, é formado essencialmente pela relação de oferta e demanda de interesses pessoais. Uma verdadeira tragédia dos comuns, onde o benefício individual é sobreposto ao bem coletivo.

Muitos dizem que os R$12 pagos pelo GatoNet não tem nada a ver com a corrupção em Brasília. O DVD pirata então não tem nenhuma ligação com o contrabando. Pior ainda, os R$50 dados ao guarda na blitz do feriadão não influencia a violência urbana. Isso tudo são mentiras que as pessoas contam à si mesmas para colocar o interesse individual acima da moral.

Mas os R$12 que o Sr. João pagou ao miliciano pelo GatoNet ajudara a financiar algum político corrupto que tentará barrar no Congresso um projeto que aumente a fiscalização sobre a pirataria. E por aí vai. Os interesses são cada vez mais escusos, e a moral, coitada, foi varrida para baixo do tapete.

O que mais ouço quando converso sobre isso é que R$12 é “pouco” e não é capaz de influenciar os milhões desviados de obras públicas, por exemplo.

É tudo a mesma coisa, é tudo dentro do Sistema.

O problema está nas pessoas que fazem (e configuram) esse Sistema. E quando digo pessoas, me refiro a nós mesmos. Chegou a hora de assumirmos a responsabilidade sobre os problemas que nós mesmos criamos, direta ou indiretamente. E não me venham com aquele papo de que isso é uma tática para afetar o próprio Sistema. Para “atacar” o Sistema é preciso frear sua demanda. Na época de AlCapone, a demanda era a bebida em época de lei seca nos EUA. No Brasil por muito tempo foi o tráfico de drogas na classe média e entrincheirado nas favelas. Hoje, evoluímos para uma transgressão endêmica, aquela que está em todas as transações que envolvem interesse público x individual.

Se você pagar propina ao guarda, é corrupto. Se compra DVD pirata ou falsifica carteirinha de estudante para pagar meia, também é igualmente corrupto. E repito a palavra corrupto quantas vezes forem necessárias. A corrupção na política é reflexo direto da sociedade brasileira corrupta e corruptível.

Um texto de João Ubaldo Ribeiro tem circulado pela Internet (e por isso mesmo não tenho certeza da autoria) falando sobre a matéria-prima do Brasil. Ele ressalta que não adianta reclamarmos da política e corrupção se a sociedade brasileira está “empesteada” pela lei da vantagem. Virou traço cultural de nossa sociedade que levar vantagem é bom. Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro. Ah, por favor, não me venham dizer que isso não é verdade. Pense nos seus últimos 30 dias e veja se você não se deparou com uma ocasião onde alguém, ou até mesmo você, não tentou levar vantagem.

E por que estou falando de tudo isso num blog de pensamentos econômicos? Pelo simples fato desse vírus da vantagem afetar diretamente a economia e suas relações, desde de fraudes em licitações, desvio de dinheiro público, pirataria, contrabando, até concorrência privada desleal, agiotagem disfarçada de crédito fácil, e assim por diante.

Sou réu confesso. Já comprei DVD pirata na 25 de março. Já furei fila, já colei em prova e já levei vantagem em estacionamento. Me arrependo e hoje sou chamado de caxias por tentar ser certinho. Já me questionei se jeitinho brasileiro é uma forma de corrupção ou um traço cultural apenas.

É tudo tão “normal” que mal nos damos conta do mal que estamos alastrando por nossa sociedade.  Nesse ambiente não ser corrupto é um ato de coragem e ser honesto infelizmente virou qualidade. Deveria ser pré-requisito. O Sistema não é foda, somos nós que fodemos com ele. Perdoem o desabafo e as palavras de “baixo escalão”.

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One thought on “O Sistema é Foda?

  1. leojianoti eu estou com você, eu sei que pode parecer da boca pra fora, que é só mais um tentando muda o Brasil, e todo esse “sistema”, porem se não tiver alguem para começar nunca ira mudar.
    O unico poder que temos é o voto, e ele é vendi por um par de tenis ou coisas q consideramos banais.A nossa sociedade é como a Roma antiga, A politica do pão e circo.
    Agora vem a questão em quem votar, na minha opinião, o sistema democratico é o problema. Com isso, qualquer um pode ser eleito, tento dinheiro, ele compra muitos e assim segue em frente.
    Temos que organizar, pessoas de principios fortes e por mais q agora eles sejam poucos dentro desta multidão de “acomodados”, com uma ideia concreta e firme, um dia poderemos fazer a diferença.
    Vamos pensar um pouco e começar a não ficar nesse comodismo.

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