O que diria Gordon Gekko se viesse ao Brasil?

Eram 0h20 da madrugada de sábado para domingo e lá estávamos eu e Jacqueline na fila da pipoca antes de assistir Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme. Claro que a excitação em relação ao filme era toda minha, o que de alguma forma convenceu Jacqueline a encarar esse “programa de índio”.

A dúvida agora é o que escolher para comentar. O filme retrata vários tópicos instigantes, desde relação pai e filho, especulação financeira, a diferença entre ganância e ambição, até a barreira entre crime e “dar um jeito”. Analisando a situação do Brasil hoje, abstraindo do período eleitoral, vejo que a mensagem mais importante que Wall Street 2 nos traz é a formação de uma bolha.

Em termos gerais, uma bolha é a forma clássica de algo que se enche e explode até esticar seus limites ao máximo, como uma bolha de sabão por exemplo. Um balão de festas tem uma capacidade limitada e se você insistir em enchê-lo mais do que suporta, rapidamente se surpreenderá com o barulho do estouro.

Em economia utilizamos o conceito de bolha para ilustrar situações insustentáveis, que se continuarem acontecendo (e crescendo), acarretarão em efeitos contrários ao seu início, geralmente prejuízos astronômicos. O caso clássico que estudamos é a febre das tulipas nos Países Baixos, inclusive brilhantemente resumido no filme. No século 17, uma tulipa chegou a valer mais que uma casa luxuosa e essa excentricidade afetou toda economia até o dia que alguém percebeu que eram apenas tulipas. A constatação de que esse “ativo” estava supervalorizado e não possuía lastro, fez seu preço cair vertiginosamente e quem apostou em seu valor perdeu tudo da noite para o dia.

Vocês percebem a insanidade disso tudo? Fácil perceber contando de fora ou falando do passado, não é? Agora imagine-se naquela região naquele tempo com aquele ambiente econômico. Provavelmente muitos de nós seríamos donos de lindas tulipas, nossas “fortunas”.

As razões para nascimento de uma bolha são variadas. Muitos afirmam que a ganância aliada à ganhos significativos cega os investidores e negócios são realizados sem análises críticas. Depois da experiência holandesa, muitas bolhas nasceram e explodiram. O caso mais recente foi a bolha imobiliária e de crédito da economia americana, depois de poucos anos da crise da Nasdaq, também uma bolha. Será que nunca aprendemos?

Acho que não. A criação de bolhas parece estar na natureza do ser humano. Vejamos nosso Brasil. Hoje, sem muito esforço é possível obter crédito imobiliário e realizar o sonho da casa própria. Não só isso. A classe média brasileira está no delírio do consumo, circulando renda e gerando emprego. Televisões de LCD, carros 0km, roupas de grife, viraram itens possíveis em residências de classe média (ou menos). É como se vivêssemos um período mágico, um “até que enfim” bradado por todos.

Receio por ser o chato dessa história. Tenho tratado esse assunto com os dois pés atrás (inclusive o engessado). Muitos me dizem: “Mas Léo, você está sendo pessimista. Chegou a hora do país crescer e você jogando água na fogueira”. Eu quero que o pais cresça sim, quero que mais gente tenha acesso ao consumo e às benesses que o desenvolvimento traz consigo. Porém, é imprescindível que o processo seja sustentável, lastreado na realidade.

Mesmo com juros altíssimos, o maior spread do mundo, vivemos uma folia do crédito. Estamos nos lixando para o conceito de capacidade de pagamento! Vejo trabalhadores empenhando metade, às vezes mais, de sua renda com empréstimos ou prestações. No furor da compra, assumem um compromisso muitas ocasiões maior que o prazo de vida útil do produto adquirido. E o juro alto ainda compensa a inadimplência. Estamos cometendo o mesmo erro que países desenvolvidos cometeram. É a pressa de comer o bolo quente e ter dor de barriga. Não quero ser estraga prazeres, mas o bolo do crescimento brasileiro ainda está fervendo!

Crescimento baseado em crédito sem lastro real é um tiro no pé. Isso ainda tem levado à elevação dos preços de imóveis, o que em alguns lugares já cresceu 300, 400%. Meu prédio é um caso clássico, onde os apartamentos aumentaram os preços em 200% e a garagem foi renovada com carros 0km e alguns deles de luxo.

O que diria Gordon Gekko se viesse ao Brasil?

Reflexos da economia aquecida? Sem dúvida. Sustentável? Não creio. Receio muito por nossa economia se os brasileiros não usarem esse momento com inteligência. Esse crescimento tem tudo para ser benéfico, mas suas ferramentas, como o crédito, devem ser utilizadas de forma positiva e sem trazer compromissos futuros que não conseguiremos resolver.

Quem não viu Wall Street, recomendo. Eu fico por aqui com meus pensamentos econômicos. Até a próxima segunda-feira!

One thought on “O que diria Gordon Gekko se viesse ao Brasil?

  1. Muito bom o seu pensamento Leo.
    Acredito que o País está dando corda demais a aqueles que mesmo enrolados estão cada vez consumindo e renovando novas dividas.
    A maioria das pessoas que conheço estão atoladas em dividas de cartão de crédito e/ou refinanciando seus carros; muitas vezes 0 km.
    Em contrapartida os Eua estão numa crise orcamentária horrivel. A europa está indo a sua rescessão. E aqui vejamos : Os brasileiros se preocupam muito em consumir ao invez de poupar parte e consumir no futuro e ai que está a logica. por outro lado setores sub aquecidos estão se saindo bem como investimentos.

    Gordon iria faturar um bocado mesmo pagando nossa tributação que é um absurdo.

    Att. Jonathan

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