Burocracia: todo mundo é culpado até que se prove o contrário

Empreender no Brasil não é fácil. E não digo apenas de abrir um novo negócio, mas também de criar inovações dentro de grandes empresas. Entre muitos desafios, aquele que mais me intriga é a burocracia.

Além de travar os tempos e movimentos de abertura e crescimento de uma empresa, a burocracia traz gastos adicionais significativos para os empresários. O que vale na justiça tradicional, de que todo mundo é inocente até que se prove ao contrário, para a burocracia brasileira todo mundo é culpado até que se prove o contrário.

Segundo o recente relatório Doing Business, produzido pelo Banco Mundial e que mede diferentes variáveis em relação aos procedimentos e regulações de negócios em 189 países, mostrou que o Brasil está na 116ª posição no ranking. Estamos atrás de economias menos desenvolvidas como Ucrânia, Líbano, Belize e Sri Lanka, e também de vizinhos, como Peru, Colômbia e Uruguai. O que o relatório ressalta, entre outras coisas, é que no Brasil a dificuldade de abrir (e fechar) uma empresa é prejudicial (para pegar leve) às atitudes empreendedoras. É remar contra a maré, com vento contra e com várias âncoras lançadas.

Entretanto, refletindo sobre as causas dessa maldita burocracia, me preocupo com sua necessidade. A burocracia existe porque o volume de enganações foi tão grande em determinado momento que foram necessários procedimentos e regras para tornar o processo verdadeiro. O exemplo vivo (e gritante) para mim é a tal “firma reconhecida”. Alguém deve olhar meu documento assinado para atestar que é minha assinatura verdadeira (e eu pago por isso!). Ou seja, muitas vezes as pessoas falsificaram assinaturas para obter vantagens indevidas que agora precisam provar que eu não sou um deles. E a carteirinha de estudante? Tão grande eram as tentativas de fraude, que até cinemas se tornaram órgãos burocráticos. “Traga sua carteirinha de estudante, com foto e data de validade expressa no verso”. Isso é exemplo claro que alguém não-estudante comprou meia-entrada indevidamente (por isso apresentar carteirinha), usou a carteirinha de outro (por isso a foto) ou apresentou a carteirinha depois de 47 anos fora da escola (data de validade).

Esses são reflexos da nossa famosa Lei da Vantagem. Maldita lei, nunca declarada mas desde sempre incrustrada em nossa moral brasileira. Ninguém declara de peito aberto ser adepto dessa lei, mas discretamente se vale de seus “artigos”, como usar carteirinha de estudante falsa, parar em fila dupla para buscar o filho na escola (ligando o pisca-alerta, claro, mas que não muda o erro), estacionar na vaga de idoso ou deficiente (é rapidinho, já volto), molhar a mão do guarda ao ser pego na blitz, etc. Os artigos são tão infinitos quanto a criatividade dos brasileiros.

Mais estranho é que todo artigo tem sua justificativa social, afinal os preços são absurdos, a lei está errada, foi só dessa vez ou ninguém está vendo. Para mim, o que mais incomoda é que o mesmo sujeito que adere de coração à Lei da Vantagem, é o mesmo que brada palavras de ordem contra um governo corrupto, sendo que a única diferença entre os dois é a oportunidade.

E sinto dizer, que a culpa da burocracia é nossa. Isso mesmo, de nós brasileiros, reis da vantagem, algozes da sinceridade e torturadores dos otários que fazem tudo certo. Ouço as palavras vivas que você já deve ter ouvido: larga mão de ser otário, rapaz, a Lei da Vantagem “pegou”. E a burocracia, meu caro, é o outro lado dessa moeda.

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