Buda e o Capital

Fazia algum tempo que um livro de economia não causava frisson na opinião pública. O que de um lado é bom para trazer luz a algum assunto renegado da grande massa, de outro suscita discussões superficiais sobre o tema. O livro de Thomas Piketty, O Capital no Século XXI, tirou do armário a análise fundamental da relação entre acumulação de capital e desigualdade de renda, temas centrais do capitalismo.

O livro é uma tese de pós-doutorado transformado para linguagem comercial (sem sucesso). Minha impressão é que o texto tenderá a ser chato para não-economistas ou para profissionais fora das ciências humanas. Piketty tem um talento de construir raciocínios e explicar seus pontos de vista, porém, para isso exige do leitor um conhecimento inicial de teoria econômica e história do pensamento econômico. Nada que breves pesquisas não resolvam.

Quando Marx escreveu O Capital (o original), ele conseguiu com maestria descrever as relações entre capital e trabalho, e como isso promoveria um forte choque de classes. O apocalipse social previsto por Marx não se confirmou como tal, pois o próprio sistema capitalista foi reformado (gradual e sutilmente) para buscar uma melhor distribuição da riqueza e permitir que mais indivíduos usufruam das benesses do capitalismo. Longe de mim acreditar que essa mudança teve efeito.

A grande dúvida de Piketty era se a desigualdade vem realmente diminuindo ao longo dos anos, com base em dados reais. Além disso, dependendo do comportamento identificado, como tem funcionado as forças atuantes da distribuição (ou não) da riqueza.

Seu empenho em busca e organização de dados é louvável. Cruzar fontes diversas com formas de cálculo bem diferentes foi, imagino eu, um trabalho hercúleo. Mas valeu a pena. Resumindo, Piketty demonstra que as taxas de remuneração do capital tem sidos superiores às taxas de crescimento das economias. Considere capital no sentido amplo, como dinheiro em si, imóveis, meios de produção, etc.

De acordo com essa situação, a desigualdade só tende a aumentar. A economia ao crescer produziria mais oportunidades para que o trabalho pudesse agregar valor e construir riqueza, igualando/melhorando sua remuneração em relação ao capital. Porém, se o capital obter remuneração superior ao que a produtividade é capaz de conseguir, o capital tende a se acumular na mão de poucos.

Os dados analisados por Piketty permitem identificar as forças que movimentam a roda no sentido de promover maior acumulação de capital, em detrimento de uma maior distribuição da riqueza (mesmo considerando a meritocracia). Entre as medidas vista com bons olhos por Piketty é que essa assimetria seja corrigida ativamente, como por exemplo, com tributações progressivas sobre grandes fortunas.

O sonho americano do homem-que-se-faz-sozinho não morre. A inovação disruptiva é capaz de catapultar alguém da base para os top10 da lista Forbes. Porém, em termos agregados, as sociedades tendem a ser tornar mais desiguais e menos recompensadoras da meritocracia. O bolo está crescendo mas estamos dividindo muito mal (e cada vez pior).

O que Buda tem a ver com tudo isso? É que antes de ler O Capital do Século XXI, eu estava lendo um livro sobre a história do budismo. Buda era um príncipe, herdeiro de um reino rico e próspero, mas decidiu abandonar tudo para seguir seu chamado. Mesmo com toda riqueza existente e possível de se alcançar, o principal capital de alguém continua sendo aquele próprio alguém.

Isso nem Piketty, nem Marx, conseguiu captar.

Enquanto nossas economias continuarem a considerar o capital (sem ‘o’ humano) como o ingrediente mais importante para o desenvolvimento, sairemos perdendo de partida.

Sabe o que é o capital do século XXI? O humano. E não digo só a pessoa em si, me refiro à tudo que é humano: os sentimentos, a interação, a confiança, a coletividade, a compaixão, a criatividade e a plenitude. Os capitais humanos somado ao capital social (identidade – confiança – interatividade) são nossos meios de produção de uma nova economia.

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